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CVG-SP discute o uso de teste epigenético como tendência para o seguro

05/11/2019

“O impacto de testes genéticos em seguros de Vida” foi o tema do almoço promovido pelo CVG-SP em parceria com a RGA, dia 31 de outubro, no Terraço Itália. A análise do tema foi realizada pelos médicos Alma Vera, gerente sênior de Subscrição da RGA LatAm, e Ricardo di Lazzaro Filho, cofundador e CEO do laboratório Genera.

O evento também contou com a presença do CEO da RGA no Brasil, Ronald Poon Affat. A RGA, segundo ele, está bastante atenta à evolução dos testes genéticos, até porque não rejeita riscos complicados. Anualmente, a empresa realiza a análise de quase 300 mil riscos considerados complicados, celebrando a marca, em 2017, de 3 milhões de riscos facultativos aceitos. “Estes riscos são negócios para nós”, disse.

Affat pondera que se os testes genéticos pudessem prever a data da morte das pessoas, não haveria mais riscos - porque a característica do risco é a incerteza – e também não haveria seguro. Mas, ele observou que este não é o único risco. “A genética trará mudanças à nossa indústria, mas sempre haverá riscos que precisam de seguro”, disse.

A popularização dos testes genéticos

Ricardo di Lazzaro Filho explicou que toda a informação genética do ser humano está no DNA, que é formado por quatro bases: A, T, C e G. Estas quatro letras chegam a 3 bilhões de combinações diferentes e funcionam como um manual de instrução para corpo produzir proteínas. O sequenciamento do genoma, realizado em 2001 ao custo de US$ 30 bilhões, tratou de colocar essas letrinhas em ordem.

Desde então, os testes genéticos evoluíram, tornando-se mais completos e mais acessíveis. Prova disso é a popularização dos testes direct-to-consumer (diretamente ao consumidor). Apenas nos Estados Unidos, mais de 26 milhões de pessoas já realizaram testes e estima-se que até 2025 toda a humanidade já terá o seu genoma sequenciado.

No Brasil, o laboratório Genera é o primeiro a oferecer o teste. Segundo di Lazzaro, com uma amostra de saliva ou sangue, dependendo do painel escolhido, o mapeamento genético revela desde a ancestralidade até a tendência para a obesidade, calvície e a predisposição a doenças, como o Alzheimer.

“Com o passar do tempo, fomos entendendo como essas letrinhas espalhadas nos cromossomos impactavam na qualidade de vida e no risco de doenças genéticas em cada pessoa”, disse. Outra constatação é que as doenças não eram apenas multifatoriais e que havia relação entre mutações genéticas e enfermidades.

Descobertas ocorreram, ainda, no campo da farmacogenética. “Passamos a entender que os medicamentos poderiam ser mais ou menos eficientes para os indivíduos que tivessem determinados marcadores genéticos”, disse. Atualmente, mais de 200 medicamentos nos Estados Unidos já advertem sobre a eficácia de acordo com os marcadores genéticos.

Segundo di Lazzaro, a ciência ainda não sabe qual o impacto do teste genético na vida de cada pessoa, mas está buscando essa resposta. Uma das pesquisas mediu o nível de estresse de pessoas que fizeram o teste, apurando que não houve alterações. Em compensação, houve aumento na busca por seguro saúde das pessoas com maior risco de Alzheimer, diminuição na busca por seguro de vida e aumento expressivo na procura do serviço long term care.

Para di Lazzaro o maior impacto dos testes será no tratamento médico com terapia genica, que possibilitará prescrever o melhor medicamento de acordo com o perfil genético individual. “O uso de dados genômicos está abrindo espaço para uma nova medicina, que chamamos de 4 P: preventiva, preditiva, personalizada e participativa”, disse.

Epigenética como evolução

Por que a revolução genética interessa ao mercado segurador? Alma Vera responde: “Porque a tecnologia está avançando rápido, o preço do teste genético está caindo, o ambiente regulatório é complexo, a anti-seleção interfere no preço do seguro e, principalmente, porque as seguradoras podem usar informações genéticas em seus produtos e serviços para ajudar pessoas”.

O uso de testes genéticos no seguro é uma questão polêmica. De um lado, governos de vários países aprovaram legislações que proíbem o uso de testes genéticos em seguros para evitar qualquer tipo de discriminação. De outro lado, seguradoras se preocupam com a seleção adversa, ou seja, com a predominância em suas carteiras de pessoas que contrataram seguro motivadas pelo resultado dos testes.

Mas, ainda que não possam ser usados, os testes genéticos acabam impactando indiretamente a sinistralidade. Dentre os estudos apresentados pela médica, o da SOA revela que o desconhecimento do resultado faz os sinistros aumentarem entre 4% e 8%. O percentual cresce quando o histórico familiar também é desconhecido. Em alguns países da Grã-Bretanha, por exemplo, é proibido o uso de histórico familiar no seguro.

Mas, se a anti-seleção preocupa as seguradoras, também é verdade que o setor estuda o assunto para usar a genética da melhor forma. Para Alma Vera, os testes podem oferecer uma estratificação de risco aprimorada e uma subscrição dinâmica. “Podemos atrair candidatos mais saudáveis e ajudar as pessoas a melhorarem seu estilo de vida”, disse. “Mas, somente depois da emissão da apólice”, acrescentou.

O avanço da genética trouxe a epigenética como alternativa às seguradoras. De acordo com Alma Vera, a epigenética revela a idade biológica das pessoas ao identificar as modificações na expressão dos genes causadas por fatores externos, como exposição a produtos químicos, doenças virais, uso de tabaco, álcool etc. Segundo ela, um jovem pode ter uma idade biológica maior que a sua idade cronológica e alguém mais velho pode ter idade biológica menor que a sua idade real.

A especialista acredita que não haverá restrições legais para uso de testes epigenéticos em seguros e que o seu melhor aproveitamento será na prevenção de doenças e melhoria do bem-estar das pessoas. Embora os testes sejam um importante preditor de mortalidade, seus resultados podem ser alterados com a mudança de estilo de vida. Por isso, ela enxerga como uma oportunidade para as seguradoras prevenirem riscos e orientarem seus clientes a terem hábitos mais saudável.

O presidente do CVG-SP, Silas Kasahaya, concordou. “O teste epigenético pode ser utilizado pelas seguradoras para melhorar a qualidade de vida de segurados por meio da oferta de planos de assistência que se adequem ao seu estilo de vida, evitando o surgimento de doenças e, consequentemente, o agravamento de risco”, disse.

Nova associada

Durante o almoço, o CVG-SP deu as boas-vindas à nova associada Lojacorr, representada, na ocasião, por Luiz Longobardi Jr. e Julio Tucci. A nova sócia-parceira do CVG-SP é formada por uma rede de corretoras de seguros independentes, fundada em 1996, que está presente em 22 estados e Distrito Federal por meio de 55 unidades de negócios.

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Fonte: CVG-SP | Texto: Márcia Alves | Fotos: Antrnik Photos