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Atuários ganham mais relevância no seguro com a pandemia e o uso de novas tecnologias

05/04/2021

No mês em que se comemora o Dia do Atuário (3 de abril), o CVG-SP reuniu um time de especialistas da área para analisar a evolução da profissão, desafios e perspectivas. De acordo com o mais recente levantamento do Instituto Brasileiro de Atuária (IBA), existem no Brasil cerca de 2,5 mil atuários em atividade, a maioria na região Sudeste. Boa parte desses profissionais, que são preparados para mensurar e administrar riscos, atuam no mercado de seguros. Mas, outras áreas estão se abrindo para os atuários e novos desafios surgindo com a pandemia, novas tecnologias e a desregulamentação promovida pela Susep.

 

Evolução da atuária

Para Leticia Doherty, presidente do IBA, a atuária está em evolução. Ela se deu conta disso quando percebeu que os atuários não eram mais contratados apenas pelas áreas tidas como atuariais, mas também pelas áreas de riscos, compliance, planejamento, RH e outras. “Isso está acontecendo porque as empresas começaram a entender que a mensuração de riscos vai muito além das probabilidades de morte de um indivíduo ou de perda de um bem”, afirma.

A forte base matemática dos atuários, bem como os seus conhecimentos em estatísticas e finanças são diferenciais importantes, segundo Letícia Doherty. “O atuário é um profissional único e completo, capaz de resolver desde problemas específicos até os mais sistêmicos de uma empresa que vende proteção, seja para pessoas ou bens”, diz. Por que isso é importante? “Porque a presença de atuários nas empresas traz maior assertividade nos posicionamentos estratégicos e maior capacidade de tomada de decisão diante dos cenários e de suas probabilidades de ocorrência”, responde.

 

Dentre as novas demandas para a atuária, Sergio Dias Pestana, gerente Executivo de Seguros Personalizados de Pessoas da Brasilseg e ex-diretor do CVG-SP, enxerga as transformações nas atividades laborais. “As novas formas de trabalho levam o atuário a rever seus modelos de maneira profunda, incluindo os modelos de sobrevivência, voltando seus estudos para a variação de risco trazida por essa nova realidade”, diz.

 

O atuário Dilmo Bantim Moreira, ex-presidente do CVG-SP, concorda e acrescenta que a profissão tem evoluído na proporção das novas demandas do seguro. “O trabalho do atuário tem se intensificado, exigindo cada vez mais acurácia na precificação e criatividade na construção de modelos que, por muitas vezes, agregam diversos tipos de riscos”, diz. Daí porque esses profissionais, segundo ele, são cada vez mais relevantes para harmonizar esse cenário com a manutenção do equilíbrio econômico das empresas.

 

A ciência atuarial é fundamental para o mercado de seguros, na visão de Joana Barros, titular da diretoria Administrativo Financeiro do CVG-SP e gerente Geral de Produtos Vida na Alfa Seguradora. “A evolução da atuária é permanente, pois, as análises devem se adaptar às ocorrências do dia a dia e às tendências de comportamento”, diz. Já o consultor Marcelo de Figueiredo, ex-diretor do CVG-SP e atual instrutor dos cursos da entidade, considera a atuária peça-chave para o desenvolvimento e as transformações digitais no seguro, bem como para o aperfeiçoamento dos processos de subscrição, pricing e telessubscrição.

 

Pandemia x atuária

O gesto solidário da maioria das seguradoras que operam com seguro de vida de indenizar os sinistros provocados por covid-19, apesar de a pandemia ser um risco excluído, obrigou os atuários a revisarem as clássicas bases de cobertura de riscos. Segundo Dilmo Bantim Moreira, essa iniciativa das seguradoras demandou, a princípio, profundos e extensos trabalhos de cálculos para entender o impacto nas carteiras e, em seguida, definir o atendimento a essa cobertura, considerando os desdobramentos também em outros ramos, além de pessoas e saúde. “Foi uma enorme quebra de paradigmas”, conclui.

De acordo com Letícia Doherty, a atuária está repensando os modelos de pricing e projeções de sinistralidade, tanto no âmbito dos ramos de saúde como de vida, já que a pandemia ainda está em curso. “A pandemia é cercada de incertezas e isso nos faz repensar fatos e números todos os dias, visando o repricing de produtos e serviços e também o desenho de novas coberturas que façam frente a essa doença e suas sequelas. A população precisa desse amparo e proteção”, afirma.

Sergio Pestana visualiza a desconstrução de parte dos modelos preditivos causada pela pandemia. “A globalização das ocorrências sociais, econômicas e sanitárias afetam os dados observados ao longo da história, modificam sua amplitude e aceleram as ocorrências”, afirma. Ele acredita que, nos próximos anos, o estudo de dados da pandemia levará irremediavelmente a modelos de riscos mais sensíveis, que serão formados com novas variáveis não consideradas até então.

“O atuário terá papel relevante na adaptação dos modelos de solvência, pois, somente o aprofundamento de seus estudos poderá mensurar, a partir desses novos fatos, o impacto que a pandemia ou outros novos eventos poderão causar no mercado de seguros, além de seus efeitos sociais”, diz Pestana. Para Joana Barros, o desafio para a atuária é grande, considerando a necessidade de mensurar e avaliar o risco diante de novos fatores que interferem diretamente no comportamento do seguro.

 

Tecnologia e mudanças regulatórias

Se, por um lado, o uso de novas tecnologias no seguro traz a inovação em produtos e serviços, por outro, modifica e cria novos riscos. Para Marcelo de Figueiredo, significa que a ciência atuarial deverá se aperfeiçoar e também incorporar e assimilar novas tecnologias. “Com o machine learning, por exemplo, a atuária pode aprimorar os processos de precificação, provisões técnicas etc.”, diz.

Mas, Figueiredo vai além ao prever o fim das tradicionais tábuas biométricas. “Com o uso de algoritmos será possível melhorar a mensuração da mortalidade ou da sobrevivência dos indivíduos”, diz. “Sairemos dos modelos estáticos para os mais dinâmicos”, acrescenta. Ele também aposta que as mudanças regulatórias promovidas pela Susep para simplificar e flexibilizar os contratos de seguros exigirão mais dos atuários. “Com essas mudanças e a chegada de insurtechs, por meio do sandbox, os atuários terão de aprender e se aperfeiçoar mais para acompanhar o desenvolvimento do setor”, diz.

“Será um novo desafio”, na opinião de Joana Barros. “Será mais voltado para tecnologia, possibilitando a utilização de fatores atuariais na forma de contratação digital”, acrescenta. Já Dilmo Bantim Moreira observa que a liberdade de ação concedida às seguradoras “tem o dom de acelerar mudanças nos produtos atuais e impulsionar o lançamento de tantos outros, trazendo mais diversidade e oportunidades à comercialização”.

A presidente do IBA garante que a desregulamentação promovida pela Susep era muito aguardada pelos atuários. “Simplificar e flexibilizar a contratação de seguros é uma das formas, senão a única, de disseminar a cultura do seguro no nosso país”, diz. Para ela, é preciso que o seguro seja acessível a todos, não só em termos de preço, mas também sob a ótica do conceito e da importância. “Famílias inteiras perdem sua perspectiva com a falta do mantenedor, outras perdem seus patrimônios nos casos de internações hospitalares de longo prazo. O único lar de uma família pode perder todo seu valor, após uma explosão ou um incêndio. Empresas perdem o rumo e se desfazem por falta de seguro”, analisa.

Letícia Doherty propõe que as escolas ensinem sobre proteção de pessoas e bens. “O governo precisa mesmo se mobilizar para que essa iniciativa avance”, diz. Já em relação às empresas de seguro e resseguro e seus empresários, ela destaca que “devem e precisam, mais do que nunca, contar com profissionais de atuária, para que toda essa simplificação e flexibilização seja feita de forma responsável e sustentável”.

Fonte: CVG-SP | Texto: Márcia Alves