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Expectativa de reforma eleva concorrência na previdência privada

22/01/2019

Com os juros mais baixos da História do país e com a reforma do sistema previdenciário na pauta do dia, os brasileiros estão procurando mais produtos de previdência privada, que apresentem rendimentos mais elevados. A consequência é uma maior concorrência, o que acabou elevando a portabilidade, isto é, a migração de recursos entre os fundos. Em 2018, as operações de portabilidade movimentaram R$ 21,9 bilhões, o maior volume histórico, segundo dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep) divulgados até novembro e compilados a pedido do GLOBO pela XP Investimentos.

Desde 2016, quando a taxa básica de juros (Selic) começou a cair até os atuais 6,5% ao ano, o movimento de portabilidade entre fundos cresceu 105%.

— Com juros baixos e novas regras para alocação de recursos, criadas em 2017, mais gestores independentes passaram a oferecer fundos destinados à previdência privada — diz a planejadora financeira Annalisa Dal Zotto, sócia da Par Mais.

Especialistas ouvidos pelo GLOBO concordam que, além do juro baixo e da preocupação com a reforma da Previdência, a mudança de regras para investir nesses produtos foi importante para elevar a concorrência.

Novas regras ajudam

Como são produtos de longo prazo, em que o participante deve investir por até 30 anos, as novas normas definidas pelo Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP) permitiram que os gestores pudessem correr mais risco para obter melhores retornos.

Para atrair novos clientes ou “roubar” os da concorrência, empresas reduziram suas taxas de administração, melhorando o ganho do investidor. Além disso, zeraram a cobrança das chamadas taxas de carregamento, que chegavam a até 5% e eram cobradas para “cobrir custos de corretagem e administrativos na aplicação dos recursos”.

Essas mudanças também aconteceram nos grandes bancos, que, além da concorrência das seguradoras, passaram a competir entre eles. Nas grandes instituições, as taxas de administração variavam de 3% a 5% para fundos de renda fixa, por exemplo, em que o trabalho é comprar títulos do governo.

— Hoje, as taxas começam em 0,3% e chegam a 2% em produtos como fundos de ações em que há uma estratégia do gestor para escolher os melhores papéis — diz Annalisa Dal Zotto, lembrando que as instituições também baixaram o valor inicial do investimento.

Desde que zerou as taxas de carregamento para todos os clientes de previdência (novos e antigos), em setembro do ano passado, a portabilidade cresceu muito no Santander. O tíquete mínimo do banco, que atua com a seguradora Zurich, é de R$ 30. Mas a recomendação é que o cliente guarde pelo menos 10% de sua renda, diz Gilberto Abreu, diretor de investimento do banco.

— Hoje, cerca de 90% dessa indústria ainda estão concentrados em produtos de renda fixa. As novas regras estão permitindo a chegada de fundos com outras classes de ativos, que oferecem retornos melhores— explica Henrique Pocai, especialista em previdência privada da XP Investimentos.

Sem pagamento de IR

Na portabilidade, o cliente não paga Imposto de Renda na migração de recursos nem perde a contagem do tempo em que o dinheiro ficou investido.

— Mas a portabilidade só é possível durante o tempo de contribuição. Quando o beneficiado começa a receber o pagamento, não é mais possível migrar — ressalta Gabriel Escabin, especialista em previdência do BTG.

O banco também passou a oferecer produtos de previdência privada, que hoje podem ser acessados pela sua plataforma digital, com taxas de administração a partir de 0,3% e aportes iniciais de R$ 1 mil. Uma das facilidades oferecidas pelo BTG digital é a migração entre fundos de diferentes categorias — de renda fixa para ações, por exemplo — de forma mais rápida e menos burocrática.

André Serebrinic, diretor de Vida, Previdência e Saúde da Mapfre, lembra que os grandes bancos ainda dominam mais de 90% desse mercado, graças à força das agências para captar clientes. As seguradoras, no entanto, estão buscando canais digitais de distribuição para competir. Na Mapfre, as taxas de administração caíram para uma faixa de 0,7% a 2%.

Para a Brasilprev, do Banco do Brasil, o aumento da portabilidade se deve à procura de maior informação sobre os produtos, o que traz mais transparência ao mercado e melhora a oferta de produtos ao consumidor. A empresa tem o maior estoque de ativos de previdência privada, com R$ 242,1 bilhões investidos.

No Itaú Unibanco, as taxas de carregamento foram zeradas em setembro de 2018 e, no ano passado, apenas através de portabilidade, a captação de clientes cresceu 11%. A taxa de administração dos planos de renda fixa varia de 0,6% a 1,75%, enquanto nos multimercados vai de 1,5% a 2%.

A Caixa Econômica Federal informou que não cobra taxa de carregamento na entrada desde 2012.

Fonte: O Globo / João Sorima Neto